domingo, 15 de fevereiro de 2009

Saber aceitar o fim porque por um momento deixamos de existir, para viver...


Ela subiu lentamente a muralha daquele castelo, para lá dela via-se um imenso vale verdejante e coberto de uma fina neblina, Era uma imagem grandiosa, inquietante, misteriosa mas lindíssima. A muralha ocupava o último pedaço de terra que antecedia uma encosta escarpada que abria caminho para 2kmde profundezas desconhecidas.
Com a pele arrepiada da beleza daquele momento, passou uma perna por cima da muralha, seguida da outra e sentou-se nos últimos centímetros de morada, sem qualquer apoio, sem qualquer segurança, apenas um segundo do tudo e do nada.
Ele subia as escadas que davam ao castelo, iria encontra-la outra vez. Ao chegar à muralha, parou atónito com o que os seus olhos lhe transmitiam, qual seria a ideia dela?
Estaria prestes a cometer o suicídio ou simplesmente a dar aso à sua despreocupação pela vida? Aproximou-se lentamente da muralha, encostou-se junto dela sem proferir uma palavra, simplesmente à espera.
- Olá
– Olá, respondeu ele.
- Senta-te aqui, convidou ela com um sorriso espalhado pelo rosto.
Ele olhou a paisagem, porque não? Nada acontecerá, teve ele a certeza, e subiu.
- Sabes porquê que tememos estar aqui? Aqui a um centímetro da morte? Uns iriam dizer que temiam que alguém aparece-se por trás e os empurra-se, outros iriam dizer que temem um acaso da natureza, o vento um tremor de terra, que os faça cair.
Mas sabes o que temem na realidade? Temem-se a si.
Sentimos medo de nós, medo de não resistirmos à tentação de por um momento pudermos abraçar toda a beleza da infinitude da natureza, pudermos fundir-nos com esta imensa paisagem, fazermos parte dela ainda que por um derradeiro e último momento. O mesmo se passa com a felicidade, tememos arriscar a vida para a alcançar, tememos arriscar a prudência e simplesmente sentir a vida, viver a vida, acreditar que é possível alcança-la sem cairmos da muralha a baixo. Estar aqui é o acto de confiança em nós e no mundo, é seguir o que o coração nos dita sem temer o amanhã, saber aceitar o fim porque por um momento deixámos de existir, para viver.

Sara Pinto
26041

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